sábado, 8 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
domingo, 26 de outubro de 2008
O professor filósofo
"De todas as ciências que se inculca na cabeça de uma criança quando se trabalha em sua educação, os mistérios do cristianismo, ainda que uma das mais sublimes matérias dessa educação, sem dúvida não são, entretanto, aquelas que se introjetam com mais facilidade no seu jovem espírito. Persuadir, por exemplo, um jovem de catorze ou quinze anos de que Deus pai e Deus filho são apenas um, de que o filho é consubstancial com respeito ao pai e que o pai o é com respeito ao filho, etc, tudo isso, por mais necessário à felicidade da vida, é, contudo, mais difícil de fazer entender do que a álgebra, e quando queremos obter êxito, somos obrigados a empregar certos procedimentos físicos, certas explicações concretas que, por mais que desproporcionais, facultam, todavia, a um jovem, compreensão do objeto misterioso.
Ninguém estava mais profundamente afeito a esse método do que o abade Du Parquet, preceptor do jovem conde de Nerceuil, de mais ou menos quinze anos e com o mais belo rosto que é possível ver.
- Senhor abade, - dizia diariamente o pequeno conde a seu professor - na verdade, a consubstanciação é algo que está além das minhas forças; é-me absolutamente impossível compreender que duas pessoas possam formar uma só: explicai-me esse mistério, rogo-vos, ou pelo menos colocai-o a meu alcance.
O honesto abade, orgulhoso de obter êxito em sua educação, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agradável de dirimir as dificuldades que embaraçavam o conde, e esse meio, tomado à natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a catorze anos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.
- Pois bem, - disse-lhe o abade - agora, meu amigo, concebas o mistério da consubstanciação: compreendes com menos dificuldade que é possível que duas pessoas constituam uma só?
- Oh! meu Deus, sim, senhor abade, - diz o encantador energúmeno - agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente; não me admira esse mistério constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois é bem agradável quando se é dois a divertir-se em fazer um só.
Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda “no mistério” que ele não compreendia muito bem, e que só poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como já o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem, e a lição recomeça, mas desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.
- Parece-me que vai demasiado rápido, - diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjunção, não sendo mais tão íntima, apresenta bem menos a imagem do mistério que se procura aqui demonstrar... Se fixássemos, sim... dessa maneira, diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta à jovem.
- Ah! Oh! meu Deus, o senhor me faz mal - diz o jovem - mas essa cerimônia parece-me inútil; o que ela me acrescenta com relação ao mistério?
- Por Deus! - diz o abade, balbuciando de prazer - não vês, caro amigo, que te ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho... é a trindade que hoje te explico; mais cinco ou seis lições iguais a esta e serás doutor na Sorbornne."
Sade, mais provocativo e impudico impossível, na verdade possível e sádico também...
Ninguém estava mais profundamente afeito a esse método do que o abade Du Parquet, preceptor do jovem conde de Nerceuil, de mais ou menos quinze anos e com o mais belo rosto que é possível ver.
- Senhor abade, - dizia diariamente o pequeno conde a seu professor - na verdade, a consubstanciação é algo que está além das minhas forças; é-me absolutamente impossível compreender que duas pessoas possam formar uma só: explicai-me esse mistério, rogo-vos, ou pelo menos colocai-o a meu alcance.
O honesto abade, orgulhoso de obter êxito em sua educação, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agradável de dirimir as dificuldades que embaraçavam o conde, e esse meio, tomado à natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a catorze anos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.
- Pois bem, - disse-lhe o abade - agora, meu amigo, concebas o mistério da consubstanciação: compreendes com menos dificuldade que é possível que duas pessoas constituam uma só?
- Oh! meu Deus, sim, senhor abade, - diz o encantador energúmeno - agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente; não me admira esse mistério constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois é bem agradável quando se é dois a divertir-se em fazer um só.
Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda “no mistério” que ele não compreendia muito bem, e que só poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como já o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem, e a lição recomeça, mas desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.
- Parece-me que vai demasiado rápido, - diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjunção, não sendo mais tão íntima, apresenta bem menos a imagem do mistério que se procura aqui demonstrar... Se fixássemos, sim... dessa maneira, diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta à jovem.
- Ah! Oh! meu Deus, o senhor me faz mal - diz o jovem - mas essa cerimônia parece-me inútil; o que ela me acrescenta com relação ao mistério?
- Por Deus! - diz o abade, balbuciando de prazer - não vês, caro amigo, que te ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho... é a trindade que hoje te explico; mais cinco ou seis lições iguais a esta e serás doutor na Sorbornne."
Sade, mais provocativo e impudico impossível, na verdade possível e sádico também...
sábado, 25 de outubro de 2008
"O que vc faria [se o mundo acabasse]?"
Faria tudo o que sempre esteve ao meu alcance mas que tanto me neguei a ter! Meus medos pessoais, meus ordenamentos morais, meu ideal de ética renegaria a tudo isto para satisfazer minhas vontades e necessidades que mais prazeirosas me fossem e para aproveitar esta última oportunidade...
domingo, 19 de outubro de 2008
Emular Lamúrias
Votei às folhas deste caderno mais cedo do que eu pensava: é pra onde eu me refugio, num canto excluído da sala à meia-luz de um abajur, no respaldo de um som inebriante e doce, me inclino sobre essas linhas que vão aos poucos ganhando contornos de autoria própria, própria de uma besta quadrada! Faz um tempo que eu falei para quem me ouve que não estou nos meus melhores dias e o pior para quem está nessa condição é olhar para trás e não sentir falta dos melhores, porventura eu ainda vá vivê-los. Quando é que valerá a pena existir? Eu já estou na segunda metade da minha vida, estou seniando e definhando dia após dia procurando algo para me apoiar, quero largar mão de revolver reminiscências ingratas, isso não pode fazer bem a ninguém e eu quero salvaguardar o orgulho que me resta. Ando tão azedo, amargo, como o dom de viver pode ser tão maldito, como a tinta desta caneta pode sustentar idéias tão invalorosas? E além de tudo só sei cuspir indecências, me escondo nessa máscara de castidade para devorar mocinhas indefesas e me esconder dos interlocutores, mas conversas as vezes me fazem bem, as vezes, né? Quando o assunto vem a propósito, quando o debatedor não é impertinente, mas momentos assim vem rareando em meu cotidiano e minha vontade por buscá-los vem seguindo o mesmo destino. Porém um diálogo inesperado nessa última madrugada me convidou à consciência de que não estou em melhores circunstâncias que aquela voz lamuriante e aguda do outro lado da linha...
O que posso dizer de bom sobre mim hoje? Não tenho sido bom filho, nem bom amigo, nem, muito menos, bom "historiador". Poucas coisas andam me satisfazendo e ando me negando a oportunidade de procurar outras. Acho que precisava de algo para ocupar minha cabeça, parar de pensar, esvaziar os anseios, apagar as incertezas, desenvolver virtudes! Na verdade eu não sei quem eu sou, é isso! Eu não sei quem eu sou; com certeza esse foi o maior conhecimento que extrai sobre mim daqueles minutos, esse e o fato de eu precisar de um psicólogo, mas disso eu já sabia, mesmo assim não conseguiria tentar: nem tentar saber que sou e muito menos procurar um.
Nessa busca entorpecida, minha única saída será insistir, sou teimoso afinal, pedra difícil de mover ou convencer, queria, no entanto um empurrãozinho... Todo pássaro precisa de um primeiro impulso, meu problema reside em saber se eu já não perdi essa sorte. Acho que nos meus últimos escritos eu deixei claro de entender qual, eu acho, é a minha sina, mas a vida não se resume a isso e eu tenho tantos outros mais complexos para debulhar que não posso perder meu tempo com esse! Às vezes me dá vontade de gritar bem alto, estourar meus próprios tímpanos, com verdades que as pessoas à minha frente aparentam não ouvir.
Repeti mais coisas do que escrevi novas... Ah, preciso conversar!
O que posso dizer de bom sobre mim hoje? Não tenho sido bom filho, nem bom amigo, nem, muito menos, bom "historiador". Poucas coisas andam me satisfazendo e ando me negando a oportunidade de procurar outras. Acho que precisava de algo para ocupar minha cabeça, parar de pensar, esvaziar os anseios, apagar as incertezas, desenvolver virtudes! Na verdade eu não sei quem eu sou, é isso! Eu não sei quem eu sou; com certeza esse foi o maior conhecimento que extrai sobre mim daqueles minutos, esse e o fato de eu precisar de um psicólogo, mas disso eu já sabia, mesmo assim não conseguiria tentar: nem tentar saber que sou e muito menos procurar um.
Nessa busca entorpecida, minha única saída será insistir, sou teimoso afinal, pedra difícil de mover ou convencer, queria, no entanto um empurrãozinho... Todo pássaro precisa de um primeiro impulso, meu problema reside em saber se eu já não perdi essa sorte. Acho que nos meus últimos escritos eu deixei claro de entender qual, eu acho, é a minha sina, mas a vida não se resume a isso e eu tenho tantos outros mais complexos para debulhar que não posso perder meu tempo com esse! Às vezes me dá vontade de gritar bem alto, estourar meus próprios tímpanos, com verdades que as pessoas à minha frente aparentam não ouvir.
Repeti mais coisas do que escrevi novas... Ah, preciso conversar!
sábado, 18 de outubro de 2008
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