"E esse amor, não o vê ninguém. A não ser talvez tão somente a lua, que flutua pelo céu e espia carinhosamente , através das frestas do telhado esburacado, para dentro do alpendre abandonado."
E tantos outros sentimentos que ninguém vê, ninguém sente? - Aqueles que guardamos no íntimo de nossas almas, que de maneira orgânica compõe o nosso ser - quantas vozes silenciadas, quantos gritos suprimidos, quantos âmagos dilascerados! Da mesma forma o outro. Tantos semblantes anônimos e reprimidos - ignorados - vc, simplesmente, não imagina que aquele vulto passando entre outros milhões quais vc também irá cruzar caminho está chorando ou se ele está gozando o melhor dia de sua vida. Não é tão fácil ou muito menos simples desnudar uma indivíduo de suas emoções somente com o perscrutar dos olhos. Quem consegue ou se interessa por ouvir esses murmúrios desconhecidos? Não conhecemos a ninguém, não conhecemos a nós mesmos! Quem está do seu lado e diz que sempre estará podes lhe fingir amor, quem está ao longe e não se vê podes lhe dever fascínio. Não nos convidamos a penetrar surdamente no reino de outrem, não nos permitimos a ceder passagem àqueles que demonstram querer ser bem-vindos.
Viveremos isolados, individualizados e fechados em nós mesmos? Nesse mundo de caráter cada vez mais egoísta é provável que sim. Talvez seja a nossa natureza, talvez seja um comportamento induzido/imposto? Quem sabe? Simplesmente não nos
perguntamos...
domingo, 22 de março de 2009
sábado, 21 de março de 2009
Los Lunes ao Sol
Segunda-Feira Ao Sol é a tradução do título "Los Lunes ao Sol", um filme sobre globalização, sobre injustiça social, sobre desespero, mas, sobretudo para dizer a nosotros como la vida es dura. Uma película estruturada em diálogos descontraídos e longos, em um espaço de ermo e abandono, nossos narradores nos trazem ao íntimo de seus âmagos e de seus dramas. Dramas análogos a de tantas outras famílias e sociedades, terreno deixado por obséquio pela sorte ao azar, uma convivência intragável com os tempos modernos.
Nossos companheiros tem nomes (Santa, José, Lino e Amador) e personalidades, definidas ou auto-destrutivas, eles poderiam ser mesmo tantos outros joões/pedros ou juans/pablos que dividem do mesmo destino: a incerteza dos próximos dias. Difícil elucida-los coletivamente, apesar da desgraça compartilhada, que em momentos os une e em outros os convulsiona, eles são retratos individuais bem discerníveis em uma multidão - notados somente quando apreendidos - através do recorte que o diretor Fernando Leon de Aranoa sugere. Principio minha resenha pelas vozes que são ouvidas porque este é o foco do filme no decorrer de toda trama ou na morosidade do enredo; não nos colocam no limiar da tragédia ou a proposta é pensar soluções salvadoras, transportam o “ouvinte” para um balcão do bar Naval no meio da conversa de quatro, às vezes cinco amigos. Todos têm aparentemente algo em comum: o infortúnio que os acomete. Dispensados do estaleiro Aurora, em uma pequena cidade industrial do norte da Espanha; mais uma daquelas empresas que se desalojam atrás de maiores incentivos, maiores lucros e mão-de-obra mais barata; um motor que alimentava a vida de milhares de homens, suas necessidades financeiras e ou vitais, agora estuporado por investimentos estrangeiros. Um movimento já bem conhecido como também bastante retratado, caso do documentário de Michael Moore, Roger & Me: a avalanche de desempregados que tudo que podem aspirar é um lugar na arquibancada para assistir às devastadoras e inexoráveis especulações do mercado. Sofrendo as adversidades de se ver sem fonte de subsistência depois dos quarenta anos, alocados das funções “produtivas”, sem perspectivas para melhores dias, resta-os subsistir no olho do furacão aonde homens/operários são meros instrumentos de trabalho, passíveis de superação, fantoches do grande jugo do capitalismo. Homens indóceis de um mundo ingrato, peças imobilizadas que não mais se sustentam por si só e tem nas vozes femininas do filme um oráculo de revelação para a realidade que os sorveu.
Questões como a fatalidade de se viver a mercê do grande capital, a infidelidade de suas mulheres ou insegurança de seus relacionamentos, os segredos dos seus convivas, a rotina da caça por trabalho são levantadas após a primeira ou terceira doses de cerveja ou quando a oportunidade (existem muitas) permite... A voz que mais destoa do grupo é também a de um dos principais personagens, Santa, interpretado por Javier Barden, é ex-liderança sindical de base, um intermitentemente inconformado e provocador tagarela. É ele quem acha a formiga, da fábula "A Cigarra e a Formiga", uma especuladora filha da mãe e entreve nos barcos fúlgidos no horizonte uma passagem para um paraíso utópico conhecido como Austrália, onde tudo é repartido e todos se sentem felizes, segundo suas próprias palavras. Para ser mais exato, o contrário da vida que eles agora levam.
Simbolismos permeiam e inundam a tela de significados e anseios, seja na luz que se apaga após o último sair, seja a urna funerária que se perde na despedida derradeira. Às vezes entender a vida parece ser mais difícil que vivê-la... Se Deus não existe – resposta a mais um dos questionamentos que rodeiam garrafas de orgulho e insatisfação – no coração destes ociosos angustiados, quem poderá resguardá-los? Ficar a deriva, como a própria existência destes indivíduos, no mar enquanto a vida passa seja em uma temporalidade indolente ou igualmente ausente parece ser a alternativa por hora.
Em contextos de crise mundial este parece ser mais um daqueles quadros que se repete a cada dia, de maneira mais violenta e sistêmica, em sucessões mais rápidas e de tal forma imprevisíveis que, como mesmo disse o historiador Wallerstein em recente artigo, em algumas décadas só restará a barbárie ou o próprio fim.
sábado, 14 de março de 2009
sexta-feira, 13 de março de 2009
Gavetas vazias, Gaivotas voando.
Existem diferentes formas de morrer; alguém pode morrer para uma pessoa de diversas maneiras e todas elas, acreditem, doem. Escrevendo isso, não estou pensando na fatalidade da carne. Meus sentidos ainda não sucubiram perante tal chaga; não é a falta do corpo físico, que perfaz essas lacunas da vida, que me preocupa no agora. É fantasiando sobre essas experiências que concebo a noção de imaturidade que até esse momento personifica meu espírito, não acredito porém, que ainda esteja nos estágios iniciais de minha existência, vejo e posso confirmar: vivi muito já, o que não irá me impedir de existir um pouco mais.. logo, me refiro à falta que uma ausência faz aos pensamentos, a este grande espaço na nossa mente, semi-preenchido por memórias, realizações, arquétipos e miolos. Algumas vezes parece que essas gavetas cerebrais são ilimitadas, que podemos armazer uma vida de informações e então não nos damos conta de quão isso pode ser pouco, de quão isso pode ser insatisfatório. Não estou reclamando um armário maior ou vinte anos mais de vitalidade, estou sim, censurando àqueles que se dão ao luxo de selecionar as recordações que melhor lhe apetecem, no entanto, me ensinaram, as coisas não são tão simples assim. Nós não estamos embuídos deste poder de escolha – "vc não aponta, abre a pasta e salva" – nós simplesmente lembramos...
O que lembramos? Costumo eu dizer que lembro de tudo; que meu palimpsesto mental deixa transparecer o que os outros costumam sobrepor; que aquele conjunto de reminiscências prensadas umas sobre as outras, soterradas discreteriosamente, sejam abalos ou júbilos, estão à minha disposição para livre e desimpedida consulta, mas é mentira, adimito. Tenho – e demonstro - uma paixão indiscriminada por esses tijolos que ergueram e moldaram a minha morada e espero, seja no além dos tempos ou numa nova era, ter finalmente finalizado minha obra e garantido a chance de nela descansar.
Descaminhos à parte, o que penalizava minha alma no limiar destas linhas, o que esfrangalha meus nervos e convulciona minhas vísceras é o afastamento, é a dissolução daquilo que parecia tão presente, que me dizia ser para sempre e que marcava todas as minhas impressões do mundo de modo bravio. De novo, não atento para a presença concreta - esta já se foi, está no estrangeiro e não me dá notícias da sua volta – mas e o que sobrou deste corpo, por que precisa ir também? Por que tem de se deteriorar, se desintegrar, se desagregar da minha carne aos poucos? Os cheiros, os sons, os borrões apagados de imagens impressas nesta matéria cinzenta, estes aos gradativamente se desvanecem, etéreos, evaporam e atingem o intangível; impalpável até mesmo para os devaneios de uma mente delirante... Se nem mesmo o pó destes ossos sobrará, o que se dirá de meus tesouros? Mas eu sinto tanto-tanto, não ter mais em minhas mãos aquilo que me destes sem eu pedir. Seria negligência própria ou a ordem natural das coisas? Apreensivo, eu só posso assistir, impotente, às minhas memórias ficarem cada vez mais difusas e vagas até eu não saber mais que as tinha.
Acho que é dolorido mesmo, não somente notar isso, mas pensar sobre também.
O que lembramos? Costumo eu dizer que lembro de tudo; que meu palimpsesto mental deixa transparecer o que os outros costumam sobrepor; que aquele conjunto de reminiscências prensadas umas sobre as outras, soterradas discreteriosamente, sejam abalos ou júbilos, estão à minha disposição para livre e desimpedida consulta, mas é mentira, adimito. Tenho – e demonstro - uma paixão indiscriminada por esses tijolos que ergueram e moldaram a minha morada e espero, seja no além dos tempos ou numa nova era, ter finalmente finalizado minha obra e garantido a chance de nela descansar.
Descaminhos à parte, o que penalizava minha alma no limiar destas linhas, o que esfrangalha meus nervos e convulciona minhas vísceras é o afastamento, é a dissolução daquilo que parecia tão presente, que me dizia ser para sempre e que marcava todas as minhas impressões do mundo de modo bravio. De novo, não atento para a presença concreta - esta já se foi, está no estrangeiro e não me dá notícias da sua volta – mas e o que sobrou deste corpo, por que precisa ir também? Por que tem de se deteriorar, se desintegrar, se desagregar da minha carne aos poucos? Os cheiros, os sons, os borrões apagados de imagens impressas nesta matéria cinzenta, estes aos gradativamente se desvanecem, etéreos, evaporam e atingem o intangível; impalpável até mesmo para os devaneios de uma mente delirante... Se nem mesmo o pó destes ossos sobrará, o que se dirá de meus tesouros? Mas eu sinto tanto-tanto, não ter mais em minhas mãos aquilo que me destes sem eu pedir. Seria negligência própria ou a ordem natural das coisas? Apreensivo, eu só posso assistir, impotente, às minhas memórias ficarem cada vez mais difusas e vagas até eu não saber mais que as tinha.
Acho que é dolorido mesmo, não somente notar isso, mas pensar sobre também.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Rumo ao Farol
"A premência do momento sempre fazia as palavras perderem seu objetivo. Elas se avoroçavam e acabavam atingindo o alvo algumas polegadas abaixo. [...] Pois como se poderia expressar em palavras essas emoções do corpo? Como expressar aquele vazio? (Olhava a escada da sacadaa de visitas, que parecia extraordinariamente vazia) era uma sensação do corpo não da mente. As sensações físicas que acompanhavam a visão dos degraus vazios se tornara extremamente desagradáveis. O querer e não ter transmitia a todo o seu corpo uma insensibilidade, um vazio, uma tensão. Querer e não ter – querer e querer -, como isso atormentava seu coração!"
Inebriado, intediado, emocionado; o que poderia causar presente mostra de impressões? Seria mesmo este livro ou as provações que me são impostas nessa existência devastadora? Curto e profundo, como o fim que me oferece um poço de água rasa pra aquele que se aventura em sua queda; são nestes poucos segundos ou naquelas poucas linhas que um quadro peculiar se exprime. A sorte reservada pelo poço é mais certa, mas a do livro não; a última página deixa em suspenso a continuidade de vidas de que pouco sabemos (afinal o que precisaríamos saber?), mas é também nessas metáforas simples e desenfreadas, a qual da mesma forma eu humildemente lanço mão, que ele transparece os detalhes mais profundos: uma careta ou comentário não são somente isso, igualmente não o são, o vento que silva ou a luz do sol que lanceta a placidez intocada do quarto. A narração também é cheia de incógnitas e respostas à perguntas que eu não pensaria em fazer; de fato, não menos que curiosidade desperta a minha mente quanto a imagem de beleza feita da Sra. Ransay.
A surpresa fica em descobrir tanto de páginas que (mais da metade delas) prolongam-se apenas no passeio à tarde no campo e o jantar à noite, em reunião de todos os convidados, entretanto é justamente o que deveria ser a primeira parte do livro (A Janela): um quadro aparentemente monótono de uma grande comunhão franternal clivada somente por pensamentos. Uma distinção psicológica de cada indivíduo é descrita, ligados unicamente pela admiração que sentem à beleza e organicidade de sua anfitriã, uma mulher singular ou mesmo plural em todos os sentidos.
O conforto para os amantes da prosa poética de V. Woofl fica na segunda parte (O Tempo Passa). Um torpor toma conta do meu espírito logo nos primeiros capítulos. Um êxtase de sensível toque que só pode ser pertubado pelo gosto rançoso de leite estragado. Seria o meu desejo mais premente compartilhar com vc desse estranho arrebatamento, mas o destino quis que eu guardasse/sentisse esse enlevo no vazio do meu isolamento. Na história o tempo de curta e de longa duração se misturam e não adianta mais pensar em verdades imutáveis, que são o verão e o inverno, agora, os pujantes em suas linhas.
O epílogo se descortina na última parte (O Farol). Do que se deveria fazer com planos adiados por dez anos? O progresso tímido das vozes nos conta... A parte mais embargada - mesmo mais oprimidada das sensações expostas - contrasta com o vazio deixado pelo eco de unidade que existia no todo, por hora desmembrado e desvairado; mácula simbolizada pela mesa do café da manhã de lugares desocupados ou pelos degraus vazios observados demoramente.
Como um balde que transborda de angústia, de sentimentos humanos, as páginas são viradas paulatinamente, deixando um temor pela conclusão que se aproxima. Eu não conseguiria terminar esse livro sozinho, necessitava de um amparo, de algo que me guiasse pelos derradeiros versos e não me abandonasse absorto em mim mesmo: uma sinfonia precisava ser ouvida! Uma melodia que me ajudasse a sondar as palavras com mais esmero e me segurasse das forças que ameaçavam tragar-me para essa realidade aniquiladora. E assim eu tive, também, "a minha visão".
Oh, se essas páginas, se estas linhas, se esta capa dura fossem uma pessoa de carne e osso...
Inebriado, intediado, emocionado; o que poderia causar presente mostra de impressões? Seria mesmo este livro ou as provações que me são impostas nessa existência devastadora? Curto e profundo, como o fim que me oferece um poço de água rasa pra aquele que se aventura em sua queda; são nestes poucos segundos ou naquelas poucas linhas que um quadro peculiar se exprime. A sorte reservada pelo poço é mais certa, mas a do livro não; a última página deixa em suspenso a continuidade de vidas de que pouco sabemos (afinal o que precisaríamos saber?), mas é também nessas metáforas simples e desenfreadas, a qual da mesma forma eu humildemente lanço mão, que ele transparece os detalhes mais profundos: uma careta ou comentário não são somente isso, igualmente não o são, o vento que silva ou a luz do sol que lanceta a placidez intocada do quarto. A narração também é cheia de incógnitas e respostas à perguntas que eu não pensaria em fazer; de fato, não menos que curiosidade desperta a minha mente quanto a imagem de beleza feita da Sra. Ransay.
A surpresa fica em descobrir tanto de páginas que (mais da metade delas) prolongam-se apenas no passeio à tarde no campo e o jantar à noite, em reunião de todos os convidados, entretanto é justamente o que deveria ser a primeira parte do livro (A Janela): um quadro aparentemente monótono de uma grande comunhão franternal clivada somente por pensamentos. Uma distinção psicológica de cada indivíduo é descrita, ligados unicamente pela admiração que sentem à beleza e organicidade de sua anfitriã, uma mulher singular ou mesmo plural em todos os sentidos.
O conforto para os amantes da prosa poética de V. Woofl fica na segunda parte (O Tempo Passa). Um torpor toma conta do meu espírito logo nos primeiros capítulos. Um êxtase de sensível toque que só pode ser pertubado pelo gosto rançoso de leite estragado. Seria o meu desejo mais premente compartilhar com vc desse estranho arrebatamento, mas o destino quis que eu guardasse/sentisse esse enlevo no vazio do meu isolamento. Na história o tempo de curta e de longa duração se misturam e não adianta mais pensar em verdades imutáveis, que são o verão e o inverno, agora, os pujantes em suas linhas.
O epílogo se descortina na última parte (O Farol). Do que se deveria fazer com planos adiados por dez anos? O progresso tímido das vozes nos conta... A parte mais embargada - mesmo mais oprimidada das sensações expostas - contrasta com o vazio deixado pelo eco de unidade que existia no todo, por hora desmembrado e desvairado; mácula simbolizada pela mesa do café da manhã de lugares desocupados ou pelos degraus vazios observados demoramente.
Como um balde que transborda de angústia, de sentimentos humanos, as páginas são viradas paulatinamente, deixando um temor pela conclusão que se aproxima. Eu não conseguiria terminar esse livro sozinho, necessitava de um amparo, de algo que me guiasse pelos derradeiros versos e não me abandonasse absorto em mim mesmo: uma sinfonia precisava ser ouvida! Uma melodia que me ajudasse a sondar as palavras com mais esmero e me segurasse das forças que ameaçavam tragar-me para essa realidade aniquiladora. E assim eu tive, também, "a minha visão".
Oh, se essas páginas, se estas linhas, se esta capa dura fossem uma pessoa de carne e osso...
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Diálogos
"- Eu preciso de vc.
- Vc precisa por quê?
- Certas perguntas não tem resposta.."
Não sei o que pensar.
- Vc precisa por quê?
- Certas perguntas não tem resposta.."
Não sei o que pensar.
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