Meu corpo sacode sobre o ritmo cadenciado do vagão, enquanto miro a paisagem tediosa através das janelas tento limpar meu peito dos pesares tão meus quanto do mundo. Respiro fundo porque aquilo que congestiona minha respiração quase sai boca a fora e me faz pensar o quão egoísta é tentar digerir o desespero alheio. Tudo soa como metáfora para esse árduo fardo da vida, minha garota recosta sua cabeça sobre meu ombro e as poucos o peso sobre meu dorso torna-se menos insuportável. A locomotiva segue o caminho dado pelos trilhos e eu quero apenas desfrutar da viagem. A paisagem tediosa destes subúrbios e suas luminárias de mercúrio aos poucos tornam-se céus iluminados como os de Van Gogh e as notas metálicas produzidas pelo atrito das rodas de ferro se assemelham quase à gaita de Bob Dylan. Sou mais um passageiro, o balanço do trem carrega meu corpo e meus pensamentos são novamente parte do mundo. Meu compromisso com a realidade não está dado e se há algum ele me será apresentado aos poucos, parada à parada, como as estações dessa linha. Todo conforto que seus beijos me dão é muito mais do que um homem pode desejar, talvez todas as ambições humanas pouco tenham de verdade se comparadas as singelas promessas que a humildade de seu lar me ofertam.
A próxima estação já não é mais a minha, confundo caminho com destino e minha mente cansada não é mais responsável do que o meu desejo de que este trem não termine sua viajem jamais. É como naquela velha história sobre a folha seca, minha alegoria mais querida, encontro minha paz e meus significados mais preciosos no deslocamento. Digo isto e então, me lembro como uma lembrança sonora da frase "el camino no es camino" e por fim chegamos em nosso ponto de chegada.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
Ditadora das Cores
A Ditadora das
Cores mantinha um dispositivo de visualização e apreensão regrado e
disciplinado em relação à classificação das cores. Conhecida entre seus iguais
como Madame Dégradé, residia em uma fortaleza transparente, a Casa de Vidro, da
qual estabelecia um violento sistema de vigilância sobre as cores do mundo.
Vestia-se em sua paleta de cores cujas anáguas da saia a tornavam volumosa e
visível a toda Corte. A gola ampla, caída sobre os ombros, criava um claro contraste
entre sua pele de um branco tênue sobre o circulo cromático que avançava sobre
os tecidos e rendas de suas vestes. Seu desfile diário descendendo desde as
escadas circulares de sua torre particular, localizada à grande altura, até a
sala do trono, sustentavam um ritual de sacralização de sua imagem e de
padronização da recepção e percepção coletiva dos fótons através das retinas
alheias.
A Corte, branca
em seus trajes de renda e seda, refletia os desejos e aspirações daquela que
portava como cetro, o único prisma de cristal do reino. Seu Gradiente, enquanto
constituição outorgada, fazia-se conhecer como lei através da Guarda Tonal e da
fiscalização panóptica que as paredes de seu castelo impostavam. Eram proibidos
todos os lápis de cor e tintas coloridas, qualquer infração deste nível era
brutalmente reprimida com a prisão e a cegueira, pena capital naquele rincãozinho
do mundo.
As histórias
daqueles que resistiam eram conhecidas – descoloridas em seu silêncio – ainda
se faziam ver desenhadas em blocos de papel com o preto e o branco. Neles, em
linhas tímidas, retratavam-se o contrabando de canetinhas vindas de terras
distantes e os piches multicores amanhecidos sobre as paredes das casas, fruto
de distúrbios noturnos, rapidamente apagados pela corja de serviçais que
trabalhavam a favor da boa moral, da ética e da composição comportada das
cores. A Guarda Tonal ou "boçal", como eram conhecidos pelos plebeus
comuns, era composta por brutamontes encouraçados com armadura de ferro
enegrecido, mesmo a íris de suas membranas oculares não destoavam daquele
padrão acromático, cuja única função era salvaguardar o monopólio das cores
mantido pelo Estado e pela autoridade da Ditadura, desafiada somente pela
natureza e pelo arco-íris que cotidianamente irrompia sob os céus.
Àqueles que
jamais tinham escutado sobre Governo e Constituição parecida, lhe soará
disparate maior quando tiverem conhecimento sobre o estatuto da música naquele mundo.
Atividade proibida e taxada das mais subversivas, sua condição marginal era justificada
no juízo posto pelos discursos diários publicados e divulgados pela assessoria
de impressa do castelo. Segundo razão da própria Madame Dégradé, a relação íntima
que subsistia entre a escala tonal e a escala das cores tornavam a primeira,
uma influencia extremamente perniciosa para a educação e formação de seus
súditos. Visto que, a tradução subjacente à relação de ambas abria um
precedente para o exercício e o estímulo do livre arbítrio. Apenas a sugestão,
as medidas coibitivas do Estado revelavam essa doutrina, da existência da
capacidade de interpretar inerente à própria estrutura de apreensão sensorial
humana impedia qualquer projeto ideológico de Nação, necessário não somente
para o equilíbrio mental e físico da população, mas, mormente para a manutenção
de uma ordem social, política e econômica pré-existente à própria sociedade.
Porém, todos o
sabem, toda ordem imposta é uma farsa, uma fantasia de mentes prepotentes
baseada em conceitos estéreis, dispostos a domesticar o mundo e a limitar a relação
com o mesmo. Os habitantes daquela região tinham suas ações restringidas e
veladas, mas seus aparelhos de recepção fugiam à regra; e da mente, cujas
janelas eram as vista para o universo, frutificavam poesias. Afinal, a
compreensão das cores é idiossincrática e sua recepção é apenas a primeira
etapa de um processo que envolve em seu desenvolvimento, a bagagem e as
experiências pessoais de cada indivíduo. Tudo isso, Madame Dégradé bem o sabia,
era demasiadamente perigoso, pois sempre dizia aos conselheiros: "em toda caixa de lápis de cores há um traço
rebelde e todo buque de flores é potencialmente um buquê de Esperitina Martins".
O que não haviam contestado à Rainha de Copas do País das Cores era tão
somente, o quão ridícula a viam através daquelas muralhas transparentes em sua
indumentária confeccionada pelo grande estilista Kaspar Faber.
sábado, 31 de agosto de 2013
Sintonia para pressa e presságio
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
Paulo Leminski
Imprime sobre sua epiderme um desenho com seus dedos, rasura imperfeições e sublinha os traços que mais lhe interessam. Desliza sobre ela para espraiar-se em suas largas planícies, explorando em seu recônditos mais sensíveis seus desejos mais prementes. Emparelham suas vistas e ali encontram a chave de acesso de pensamentos silenciados, um turbilhão de dúvidas pulula a atmosfera do quarto. Deseja ler sua pele assim como anseia conhecer grandes escritores. À meia luz seus corpos permanecem em repouso, as pernas de ambos emaranhadas aproximam os sexos latejantes e úmidos, o ocaso da condição física de que dispunham denuncia o ardor de dois amantes. Em seu semblante sereno ainda ressoa as imagens sinestésicas que a colocaram sobre ele, montada sobre seu quadril, em um movimento compulsivo e delirante que a fazia refastelar-se com seu sexo. Penetra-a. O choque entre as duas virílias ecoava seco pelo quarto mudo. Mantinha os seios dela comprimidos em suas mãos enquanto admirava a possessão do prazer em sua expressão. Como asfixiada mergulhava e se afogava em sua própria ventura sexual até o apogeu jogá-la contra seu tronco quase imóvel. Senti-a com carinho sobre seu peito e percebi as ondas que o seu gozo haviam provocado percorrerem seu corpo em espasmos cada vez mais enfraquecidos. Ambos estavam ali, mas tão pouco estavam. Quer de novo senti-la em seu gosto acre com o dedo indicador e quer de novo que ela o chupe para compartilharem do mesmo sabor.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
Paulo Leminski
Imprime sobre sua epiderme um desenho com seus dedos, rasura imperfeições e sublinha os traços que mais lhe interessam. Desliza sobre ela para espraiar-se em suas largas planícies, explorando em seu recônditos mais sensíveis seus desejos mais prementes. Emparelham suas vistas e ali encontram a chave de acesso de pensamentos silenciados, um turbilhão de dúvidas pulula a atmosfera do quarto. Deseja ler sua pele assim como anseia conhecer grandes escritores. À meia luz seus corpos permanecem em repouso, as pernas de ambos emaranhadas aproximam os sexos latejantes e úmidos, o ocaso da condição física de que dispunham denuncia o ardor de dois amantes. Em seu semblante sereno ainda ressoa as imagens sinestésicas que a colocaram sobre ele, montada sobre seu quadril, em um movimento compulsivo e delirante que a fazia refastelar-se com seu sexo. Penetra-a. O choque entre as duas virílias ecoava seco pelo quarto mudo. Mantinha os seios dela comprimidos em suas mãos enquanto admirava a possessão do prazer em sua expressão. Como asfixiada mergulhava e se afogava em sua própria ventura sexual até o apogeu jogá-la contra seu tronco quase imóvel. Senti-a com carinho sobre seu peito e percebi as ondas que o seu gozo haviam provocado percorrerem seu corpo em espasmos cada vez mais enfraquecidos. Ambos estavam ali, mas tão pouco estavam. Quer de novo senti-la em seu gosto acre com o dedo indicador e quer de novo que ela o chupe para compartilharem do mesmo sabor.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Caché (Hidden)
Um jogo dúbio entre externo e interno é posto em cena produzindo como efeito uma inversão. Inverte-se a posição do dispositivo de controle, se antes ele convergia para o centro, enredando o coletivo social sob a autoridade do Estado, agora ele nasce do centro como produto inconsciente do ego agindo sobre o universo individual. É sobre a coexistência de sentidos opostos no fluxo da rede que conecta a sociedade aos indivíduos que o filme Caché (Hidden) de 2005 aborda. Dirigido por Michael Haneke, ele é uma coprodução entre quatro países, França, Áustria, Alemanha e Itália; cuja história narra o drama de uma família de classe média alta que passa a receber gravações de sua própria casa registrando a rotina de seus moradores e estranhos desenhos infantis de crianças sangrando.
A sobreposição dessas redes apontam para fatos compartilhados, o filme de Haneke não trata apenas de um misterioso drama pessoal de difícil solução, ele imerge sobre a construção da sociedade francesa tensionada por narrativas nacionais distintas e silenciadas, cicatrizes das quais a exposição atestam conflitos ainda não olvidados. Todos conhecemos a composição multi-étnica da população francófona, fruto de uma passado colonista e imperialista que sobre um mesmo solo vingou memórias argelinas, senegalesas, camaronesas, judias, [...] de litígios sangrentos e prementes. Assim marca, a metáfora posta pelo encontro entre o personagem George, encenado pelo ator Daniel Auteuil, com o ciclista de ascendência afrofrancofona no meio da rua. A intervenção da esposa de Geroge "- Vc não estava olhando, nem ele estava olhando, ninguém tem culpa de nada..", não foi o suficiente para eliminar a tensão social de um século e meio de injustiça migratória. Para todos os efeitos, a lição de perspectiva histórica nos dada pelo povo Piro, habitantes do baixo Urubamba na Amazônia peruana, de que não importa de quem é a culpa, mas antes deve buscar-se saber onde tudo começou tem aplicação legítima sobre essa questão. Igualmente não importa o autor das fitas cacetes anônimas, a indagação a qual a película se presta é sobre a ligação entre crises de consciência de extremidades distintas, individual e estatal, a injustiça cometida por um menino de 6 anos é produto do Massacre de Paris de 1961 sobre a marcha organizada pela Frente de Libertação Nacional argelina segundo uma teoria do caos de coloração neocolonialista.
Vigiar e punir de Michel Foucault (1975) aqui assume um tom revanchista e egóico - o foco centrífugo do dispositivo de controle sobrepõe-se ao centrípeto - não se trata diretamente da injustiça do crime de genocídio sobre a consciência de uma nação, mas pura e simplesmente do caso da morte de homem suportada pela consciência de outro. Esses são os valores e as reminiscências legadas de herança para as novas gerações que descem ruidosamente as escadarias dos colégios franceses.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Flautas de Pã
Antes de escrever sobre o amor prefiro escrever sobre a vida, da qual a primeira é apena uma ínfima parte da segunda - a qual eu não faço a mínima idéia do que seja - mas já ando desconfiado de saber.
"Um meio de obter é não procurar,
um meio de ter é o de não pedir
e somente acreditar
que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – meu mistério."
Menina cujo peso dos passos reverbera em curtas ondas sobre a superfície da agua; menina cujo tom de voz acompanha as notas das flautas de pã tocadas à beira do lago e entremescladas à aragem fresca. É noite de festa e a clareira de um bosque desconhecido se ilumina, nos olhos dessa menina vemos refletida a dança e a música daquelas criaturas mitológicas. As ninfas das árvarores e das águas a convidam para compartilhar de um mesmo ritmo, pois está ai, toda a paixão de um botão que desabrocha e descobre os prazeres da vida ao lado de Efidríades, Hamadríades, Faunos e tantos outros. Vêem em seu largo sorriso todos os mistérios do mundo, toda a curiosidade de Pandora. Aquele encanto entre o "não saber porque" e o "não se importar com isso de não entender" toma-a em uma única torrente, lavando seu corpo, aos poucos desnudado das vergonhas terrenas. Seios de cor alva que à luz da lua balançam sem candeio e com tão pouca candura. Entrega-te ao caminho, pois tudo o que há na vida são caminhos e eles te levam para todas as partes basta não eleger.
"Um meio de obter é não procurar,
um meio de ter é o de não pedir
e somente acreditar
que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – meu mistério."
Menina cujo peso dos passos reverbera em curtas ondas sobre a superfície da agua; menina cujo tom de voz acompanha as notas das flautas de pã tocadas à beira do lago e entremescladas à aragem fresca. É noite de festa e a clareira de um bosque desconhecido se ilumina, nos olhos dessa menina vemos refletida a dança e a música daquelas criaturas mitológicas. As ninfas das árvarores e das águas a convidam para compartilhar de um mesmo ritmo, pois está ai, toda a paixão de um botão que desabrocha e descobre os prazeres da vida ao lado de Efidríades, Hamadríades, Faunos e tantos outros. Vêem em seu largo sorriso todos os mistérios do mundo, toda a curiosidade de Pandora. Aquele encanto entre o "não saber porque" e o "não se importar com isso de não entender" toma-a em uma única torrente, lavando seu corpo, aos poucos desnudado das vergonhas terrenas. Seios de cor alva que à luz da lua balançam sem candeio e com tão pouca candura. Entrega-te ao caminho, pois tudo o que há na vida são caminhos e eles te levam para todas as partes basta não eleger.
sábado, 30 de março de 2013
Lavoura Arcaica
Saio da terra sobre a qual me ergui, da qual sorvi os nutrientes necessários paa minha sustentação e crescimento. Dela meus irmãos encontraram uma mesma origem e como eles, meus pais e os pais de meus pais semearam o fruto que hoje colhemos. Com o suor do trabalho e a orientação de sermões e preces construi-se a casa na qual moramos e da qual tiramos nosso abrigo contra as intempéries do clima e da gente. Ali aonde compartiamos o pão produzido com matéria de nosso labor fomos formados enquanto ser humanos; educados ao modos da lei e da fé. A tradição fluídas pelas palavras de nossos pais não era mais do que um surdo reverberamento da civilização que nos envolvia desde paragens alheias. Dia a dia essas homílias patriarcais nos conceberam a verdade na qual deveríamos acreditar e enquanto luz, era a única que poderia nos guiar. Refeição após refeição escutavamos as pregas a favor do trabalho e da família, de Deus e de nossa terra, sobre elas cristalizaram-se minha tenra visão de mundo. A elas respeitava porque temia a voz austera e as vezes tronitoante de nosso pai, quem à cabeceira da mesa e barba volumosa, nos revelava os mistérios da vida. Minha mãe e meus irmãos dispostos a sua vista aceitavamos sem refletir ou questionar. A saúde de todos era plena e a mesa farta atendia a necessidade de cada um após uma árduo e longa jornada de lavoura. Haveria algo mais a se rogar àqueles que nos protegiam contra os males terrenos e etéreos? O tempo era bom e nada nos faltava, principalmente ao meu sutil e inocente espírito que se animava com a perspectiva de caminhar sob a luz do sol com meus pés descalços sobre as folhas secas e banhar me desnudo às águas cristalinas do lago.
Então, me perguntas por que abandono os seios da mãe que me criou e amamentou castamente durante tantos anos? Porque entregar-se ao alvorecer de uma nova fase da vida aos augidos de uma saara distante e desconhecida? Parto pelo sabor das palavras e pelo entusiasmo de experiências que me foram negadas e ocultas. Viajo em busca da luxúria da carne e do vício. Será o vinho vazando pelos meus poros que me permitiram cultivar o obceno ou, como em tantos momentos eu o alcunhei, minha liberdade. O homem não se faz sozinho, bem o sabemos, mas tão pouco se faz em um lugar só, por isso minha ansia pelas estradas, meu destino vagabundo de vagar pelo mundo. É somente por meio desse desejo que justifico a furia com a qual abandonei minha família.
Entranto, digo, após muitos anos de meu adeus mudo, as pequenas lições dadas pela minha infancia, as nobres reminiscências criadas pela correria pelos salões claros de nossa casa não foram plantados em chão de terra batida, pedregulho ou espinhos. Guardo comigo a sapiência de uma vida, assim como levo em meu peito os lugares pelos quais passei. Com convicção dito que não há amor sem liberdade como em toda a palavra, mesmo as censuradas existem grãos graudos passíveis de serem sembrados. E se acaso ditraÍdo me perguntas: pra onde estamos indo? Estamos indo sempre pra casa.
Então, me perguntas por que abandono os seios da mãe que me criou e amamentou castamente durante tantos anos? Porque entregar-se ao alvorecer de uma nova fase da vida aos augidos de uma saara distante e desconhecida? Parto pelo sabor das palavras e pelo entusiasmo de experiências que me foram negadas e ocultas. Viajo em busca da luxúria da carne e do vício. Será o vinho vazando pelos meus poros que me permitiram cultivar o obceno ou, como em tantos momentos eu o alcunhei, minha liberdade. O homem não se faz sozinho, bem o sabemos, mas tão pouco se faz em um lugar só, por isso minha ansia pelas estradas, meu destino vagabundo de vagar pelo mundo. É somente por meio desse desejo que justifico a furia com a qual abandonei minha família.
Entranto, digo, após muitos anos de meu adeus mudo, as pequenas lições dadas pela minha infancia, as nobres reminiscências criadas pela correria pelos salões claros de nossa casa não foram plantados em chão de terra batida, pedregulho ou espinhos. Guardo comigo a sapiência de uma vida, assim como levo em meu peito os lugares pelos quais passei. Com convicção dito que não há amor sem liberdade como em toda a palavra, mesmo as censuradas existem grãos graudos passíveis de serem sembrados. E se acaso ditraÍdo me perguntas: pra onde estamos indo? Estamos indo sempre pra casa.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Pegadas na areia.
"“Soy tan feliz”, dice Sonia apoyando la mejilla en el pecho de Roland adormilado. “No lo digas”, murmura Roland, “uno siempre piensa que es una amabilidad”. “¿No me crees?”, ríe Sonia. “Sí, pero no lo digas ahora. Fumemos.” Tantea en la mesa baja hasta encontrar cigarrillos, pone uno en los labios de Sonia, acerca el suyo, los enciende al mismo tiempo. Se miran apenas, soñolientos, y Roland agita el fósforo y lo posa en la mesa donde en alguna parte hay un cenicero. Sonia es la primera en adormecerse y él le quita muy despacio el cigarrillo de la boca, lo junta con el suyo y los abandona en la mesa, resbalando contra Sonia en un sueño pesado y sin imágenes. El pañuelo de gasa arde sin llama al borde del cenicero, chamuscándose lentamente, cae sobre la alfombra junto al montón de ropas y una copa de coñac."
Todos los fuegos el fuego, Julio Cortazar.
Rescostado em um dos bancos do lado da janela, enfurnado ao fundo do coletivo, repousava minha cabeça contra o vidro. Sua qualidade fosca parecia acentuar minha indiferença em relação ao mundo externo. Estava cansado e parecia compartilhar com o resto dos passageiros o pesar daquele fim de tarde com excessão de um casal que parecia estar alheio em seu mundo de carícias e risos contidos localizado dois bancos mais a frente. Era fins de novembro e o calor daquela primavera parecia torrar as têmporas dos passantes a quem o autobus deixava para trás, porém eis que uma fisionomia se desgarra das outras e minha mirada atordada se desvia dos letreiros coloridos e chamativos das ruas do centro e se concentra naquele semblante de sombrancelhas arqueadas e bem feitas. Minha desetenção a registrou de relance, mas minha memória jamais abandonou ao olvido aquele olhar mediterrânico. Foi impulsivo - mas em qualquer um dos outros mundo eu teria agido da mesma maneira - saltei de meu acento e dei sinal, quebravamos a esquina e seu perfil aos poucos tornava-se indivisível. Queria apenas alcança-la, fazê-la crer que aquele encontro era casual e involuntário e talvez arrancar-lhe um sorriso com tamanha desfaçatez. Quiçás não me reconhecerias ou pior, meu sobressaltado movimento seria fruto de um tolo engano. Vacilo ao pronunciar seu nome, mas é seu rosto que se volta a minha direção com uma leve surpresa nos lábios. Aquele momento não nos reserva tempo, seu atraso para algum jantar à algumas quadras além dita o ritmo do ocaso. Queria revirar o passado e reviver as sendas deixadas por reminicências tão antigas, mas sua indagação educada ao relógio me nega essa oportunidade. Era verdade e eu já sabia, os desfechos são definitivos e o passar dos anos apenas confirmam as palavras já ditas.
Todos los fuegos el fuego, Julio Cortazar.
Rescostado em um dos bancos do lado da janela, enfurnado ao fundo do coletivo, repousava minha cabeça contra o vidro. Sua qualidade fosca parecia acentuar minha indiferença em relação ao mundo externo. Estava cansado e parecia compartilhar com o resto dos passageiros o pesar daquele fim de tarde com excessão de um casal que parecia estar alheio em seu mundo de carícias e risos contidos localizado dois bancos mais a frente. Era fins de novembro e o calor daquela primavera parecia torrar as têmporas dos passantes a quem o autobus deixava para trás, porém eis que uma fisionomia se desgarra das outras e minha mirada atordada se desvia dos letreiros coloridos e chamativos das ruas do centro e se concentra naquele semblante de sombrancelhas arqueadas e bem feitas. Minha desetenção a registrou de relance, mas minha memória jamais abandonou ao olvido aquele olhar mediterrânico. Foi impulsivo - mas em qualquer um dos outros mundo eu teria agido da mesma maneira - saltei de meu acento e dei sinal, quebravamos a esquina e seu perfil aos poucos tornava-se indivisível. Queria apenas alcança-la, fazê-la crer que aquele encontro era casual e involuntário e talvez arrancar-lhe um sorriso com tamanha desfaçatez. Quiçás não me reconhecerias ou pior, meu sobressaltado movimento seria fruto de um tolo engano. Vacilo ao pronunciar seu nome, mas é seu rosto que se volta a minha direção com uma leve surpresa nos lábios. Aquele momento não nos reserva tempo, seu atraso para algum jantar à algumas quadras além dita o ritmo do ocaso. Queria revirar o passado e reviver as sendas deixadas por reminicências tão antigas, mas sua indagação educada ao relógio me nega essa oportunidade. Era verdade e eu já sabia, os desfechos são definitivos e o passar dos anos apenas confirmam as palavras já ditas.
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