sábado, 4 de janeiro de 2014
Diálogos 'mineiros'
- Vamos por aqui.
- Mas o mapa aponta para aquela direção.
- Vai dar no mesmo..
- Então todos os caminhos vão para o mesmo lugar?
- Não. Os caminhos apontam para novas possibilidades.
Fim
Te descreveria com mil detalhes sinestésicos aquelas colinas de claras pradarias que brindavam com aquele céu azul um verde molhado de paladar quase suave. A sensação de cruzar aqueles mares de morros pouco tem a ver com olhá-los desde a janela de automóveis. Mesmo as águas turvas daquele rio, resultado de uma coloração ferrosa, era boas de beber. Te contaria também sobre o baile de andorinhas que nos envolvia como envolvem nuvens, mergulhando e rodopiando aos milhares ao nosso redor, pareciam nos convidar se não estivessem nos hostilizando. Era tantas flores e flores tão formosas, tão atraentes como os pés de roseira que D. Benta cultivava em seu quintal e que as encontrei surpreso depois do amanhecer. Lhe daria com palavras as coisas que vi se meu desejo de que as tivesse contemplado comigo não fosse maior. Talvez em sua companhia as dores físicas não pesassem tanto sobre as minhas costas em momento de contemplar o céu. Então, sinto que vencer a realidade tátil daqueles horizontes com minha retórica pueril seja menos um elogio do que a certeza de detração. Por isso, quero guardá-las comigo como o são e não traduzi-las como as senti.
Além do que, tudo nessa charla são floreios para o que mais importa, não é?
O que importa é livro que escreveria com todas as sensações que tu me fizeste sentir, um livro cuja leitura venceria as noites. Não um romance cavalariço ou um conto daqueles de ninar espíritos inocentes, mas antes, um tomo pleno de sensações táteis, odores característicos e prazeres sexuais. Linhas que desafiariam a madrugada não como nossas conversas infindáveis, mas sim, prenhe de experiências, daquelas que me fizeram sentir-se vivo mais do que eu nem me lembro mais.. Pões um ponto final no livro e eu o queimo com ânsia suicida.
Além do que, tudo nessa charla são floreios para o que mais importa, não é?
O que importa é livro que escreveria com todas as sensações que tu me fizeste sentir, um livro cuja leitura venceria as noites. Não um romance cavalariço ou um conto daqueles de ninar espíritos inocentes, mas antes, um tomo pleno de sensações táteis, odores característicos e prazeres sexuais. Linhas que desafiariam a madrugada não como nossas conversas infindáveis, mas sim, prenhe de experiências, daquelas que me fizeram sentir-se vivo mais do que eu nem me lembro mais.. Pões um ponto final no livro e eu o queimo com ânsia suicida.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Seu Zé e Dona Maria da Serra do Cipó
É ali, no regaço de uma cozinha humilde que
duas singelas figuras nos recebem, permitindo-nos passar, a nós e a
quaisquer outros, com passos leves para frear o ranger das tábuas de
madeira do assoalho. Um diminuto espaço cuja paredes enegrecidas de carvão o tornam quase claustrofóbico, sensação aliviada apenas pela janela que alcança o pasto e por José e D. Maria cujo conforto se estende através dos gestos tímidos e comentários geniosos sobre o fazer e o ser daquele lugar, a Serra do Cipó, no interior de Minas Gerais. Uma "casa velha" que, como frisava D. Maria, guarda gerações de uma família regulada pelo clima daquela região úmida e fértil. Então, paredes de taipa se tornam tão generosas e calorosas como aqueles que acarinham a todos como a menino Jesus.
Dois senhores de expressão árida e traços calejados, reclusos em um idílio de verdes campos e céus fulgurantes; das dezenas de imagem registradas de seus rostos inexpressivos, roubadas da intimidade de seu lar, não refletem dois corações maiores que a colina sobre a qual repousa suas vidas. Se soam assustados diante de flash, mostram-se muito mais humanos diante de pessoas. Incontáveis devem ser as histórias que aqueles cômodos escuros e contíguos, assim como as paredes forradas de imagens e ícones sacros, devem guardar sobre seu Zé e D. Maria. Um bem entretanto, chama a atenção mais do que qualquer outro, uma foto de moldura rara e oval cujos rostos retratado são jovens, porém também distanciados em um tempo de trajes formais e películas amareladas. Senhores taciturnos da casa que a todos que a penetram os observam. Ali, na parede lateral do primeiro ambiente, parecem zelar pela tranquilidade e paz de um casal de idosos acostumados a receber visitas.
Dois senhores de expressão árida e traços calejados, reclusos em um idílio de verdes campos e céus fulgurantes; das dezenas de imagem registradas de seus rostos inexpressivos, roubadas da intimidade de seu lar, não refletem dois corações maiores que a colina sobre a qual repousa suas vidas. Se soam assustados diante de flash, mostram-se muito mais humanos diante de pessoas. Incontáveis devem ser as histórias que aqueles cômodos escuros e contíguos, assim como as paredes forradas de imagens e ícones sacros, devem guardar sobre seu Zé e D. Maria. Um bem entretanto, chama a atenção mais do que qualquer outro, uma foto de moldura rara e oval cujos rostos retratado são jovens, porém também distanciados em um tempo de trajes formais e películas amareladas. Senhores taciturnos da casa que a todos que a penetram os observam. Ali, na parede lateral do primeiro ambiente, parecem zelar pela tranquilidade e paz de um casal de idosos acostumados a receber visitas.
domingo, 22 de dezembro de 2013
De como não ter chance alguma em uma discussão
Quem disse que expressões faciais contorcidas e tons de vozes elevados angariam pontos discussões políticas? Tudo me leva a creditá-los como artifícios de quem tão bem conduz dotes físicos como o faz com lápis de colorir ou goivas para entalhar. A poesia abdica do verbo para encarnar-se em outras linguagens, a poesia assumi aqui uma corporalidade tanto específica como atraente. Então, as palavras envolvem-se entre os meneios de mãos que agitam o ar afoitamente, disputam a atenção como se retórica e plástica se digladiassem. O fio condutor segue por um tronco bem feito até escorregar-se pelas linhas delgadas de suas pernas. Questões políticas, sociais e ideológicas são o nosso fraco, mas também a minha perdição.
"Afinal, seus arroubos feministas não me importam muito. Em suma, tudo aquilo havia sido para me explicar por que ela deixara de se sentir culpada. Bom, isso era o importante, que ela não se acreditasse culpada, que afrouxasse a tensão, que se sentisse à vontade nos meus braços. O resto é adorno, justificação; pode estar ali ou não, para mim tanto faz. Se ela gosta de sentir-se justificada, se transforma tudo isto num grave problema de consciência, e quer comunicá-lo, que que eu tome conhecimento, que a escute dizê-lo, bom, então que o diga e eu escuto. Ela fica linda com suas bochechas acesas pelo entusiasmo."
Mario Benedetti.
"Afinal, seus arroubos feministas não me importam muito. Em suma, tudo aquilo havia sido para me explicar por que ela deixara de se sentir culpada. Bom, isso era o importante, que ela não se acreditasse culpada, que afrouxasse a tensão, que se sentisse à vontade nos meus braços. O resto é adorno, justificação; pode estar ali ou não, para mim tanto faz. Se ela gosta de sentir-se justificada, se transforma tudo isto num grave problema de consciência, e quer comunicá-lo, que que eu tome conhecimento, que a escute dizê-lo, bom, então que o diga e eu escuto. Ela fica linda com suas bochechas acesas pelo entusiasmo."
Mario Benedetti.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Imagens do Inconsciente
haber aprendido
a desnudarme
y aceptar discretamente
que el abono fue
siempre será
doloroso
y nunca se está
en la vida jamás se está
de veras
solo
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Dança de Ninfa e Sátiro
Embrenha-se floresta adentro, distintos estímulos embaralham os sentidos que, entorpecidos, se entregam à quimera. Especula com os passos a terra firme e úmida que envolve seus pés com ramas e folhas, transita entre as árvores com os mesmos movimentos com os quais seus pensamentos fluem inquientos entre si em sua mente, caminhar sempre teve um sentido em si mesmo. Não sabe se tens permissão, apesar de pedido feito, avança sob a suspeita de indiscrição e lhe sobem a mente mil fantasias insólitas. A solidão e o silêncio não existem ali, apenas o breu que lhe cobre com olhos invisiveis; é excitante pensar nas milhares de redes de relações que são disparadas a cada imprecaução de galho partido. Quer passar desapercebido, porém guarda plena consciencia do conhecimento dos outros sobre ele. Tudo ali parece feito da tinta do pincel de um deus que se dedica à pintura do maravilhoso aos domingos.
Ao jogar a vista ao céu, entre as copas de grandes árvores, a lua lhe guarda um rosto amarelo, desconcertada com a tarefa imposta de ser a única a se revelar naquele cenário. Aos poucos aquele corpo frágil se enleva com as mais variadas melodias noturnas. As texturas da floresta não mais lhe pinicam a epiderme e seu desespero inicial diminui o ritmo junto as batidas de seu coração.
- Mesmo eu sou refém de meus set's literários, minhas narrativas transformam-se em prosa poética e insisto tanto nos detalhes que esqueço a história e passo a desejar viver o que escrevo antes de escrever o que vivi.-
Tens a impressão de fazer parte de uma grande cia de dança, teatro ou até circo, toda a revolta desencadeada pelas correntes de ar lhe soam com uma dramaticidade cativante. O frio, condutor principal dos medos mais primordiais, submete-se ao calor dos palcos.
Entre troncos musgosos, surge então, a atriz principal, quem não estava ali, agora transita como se estivesse de passeio entre cômodos de uma casa. Uma das mais belas ninfas daquele recanto vem lhe receber em seus cantos e como sátiro, aceita o papel que lhe atribuem. Ama-a no interior da depressão de um Jequitibá gigantesco, rosa como os seios da ninfa semi-desnuda, cujos reboliços infindáveis são atenuados apenas por suas mãos que os empunham com grande prazer. Arrasta suas mãos arranhando as coxas da dona de um sorriso pueril e se imposta entre suas pernas fincado suas ferraduras em solo macio. Se amam entre suspiros e feridas e tudo naquele bosque exala perfume de amor e luxúria.
Ao jogar a vista ao céu, entre as copas de grandes árvores, a lua lhe guarda um rosto amarelo, desconcertada com a tarefa imposta de ser a única a se revelar naquele cenário. Aos poucos aquele corpo frágil se enleva com as mais variadas melodias noturnas. As texturas da floresta não mais lhe pinicam a epiderme e seu desespero inicial diminui o ritmo junto as batidas de seu coração.
- Mesmo eu sou refém de meus set's literários, minhas narrativas transformam-se em prosa poética e insisto tanto nos detalhes que esqueço a história e passo a desejar viver o que escrevo antes de escrever o que vivi.-
Tens a impressão de fazer parte de uma grande cia de dança, teatro ou até circo, toda a revolta desencadeada pelas correntes de ar lhe soam com uma dramaticidade cativante. O frio, condutor principal dos medos mais primordiais, submete-se ao calor dos palcos.
Entre troncos musgosos, surge então, a atriz principal, quem não estava ali, agora transita como se estivesse de passeio entre cômodos de uma casa. Uma das mais belas ninfas daquele recanto vem lhe receber em seus cantos e como sátiro, aceita o papel que lhe atribuem. Ama-a no interior da depressão de um Jequitibá gigantesco, rosa como os seios da ninfa semi-desnuda, cujos reboliços infindáveis são atenuados apenas por suas mãos que os empunham com grande prazer. Arrasta suas mãos arranhando as coxas da dona de um sorriso pueril e se imposta entre suas pernas fincado suas ferraduras em solo macio. Se amam entre suspiros e feridas e tudo naquele bosque exala perfume de amor e luxúria.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Sentido histórico brasileiro
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!
Castro Alves, Navio Negreiro
Antes de tudo cabe uma ressalva explicativa em relação ao título deste texto. Lanço mão aqui do conceito cunhado por Caio Prado Jr. por duas razões; primeiro, emprego a mesma definição utilizada por ele quando se referia às circunstâncias sociais, político e econômicas que emolduravam o período histórico conhecido como colonização; segundo, afirmo igualmente que minhas crenças analíticas situam as origens deste processo no período primitivo de nossa formação.
A estrutura sobre a qual ergue-se as relações que fundamentam e constroem a nossa sociedade segue um sentido único, o sentido do nosso processo histórico. Sob ele encontraremos não apenas os fatos que ilustram e emolduram nossa identidade histórica, mas nos será dada a via de acesso para a compreensão do caráter de nossa sociedade contemporânea. Somos fruto de discursos e embates físicos que no decorrer de cinco séculos narrativos tingiram a brasileiridade com um tempero específico. As relações que governam o nosso cotidiano, subscritas em um contrato de senso comum, na verdade guardam a força da corrente incontestável e, as vezes tendo a crer em rompantes de pessimismo, inelutável da história.
Reescrever a gênese deste processo não exige uma mirada especializada ou um embasamento documental, exige, simplesmente, sensibilidade em relação aos não-ditos, interditos e gafes projetados pelo nosso inconsciente e traduzidos em nossas ações. Pois digo, não nos eximamos da corrente da história, somos mesmo seus cúmplices em nossos silêncios. A linguagem, como meio de conexão para o outro, revela em seu intimo as relações de poder as quais se submete. As relações estruturais encarnada na hierarquia sem a qual esta sociedade não se sustentaria são expressas e podem ser visualizadas no sistema linguístico, a palavra é entendida aqui como signo ideológico, já bem havia dito Mikhail Bakhtin. Assim, a palavra não funciona como mascaramento da práxis cotidiana, antes, para além da sua representação, ela a reafirma permanentemente.
A principal marca identitária de nossa formação se encontra fundamentalmente no sistema escravista, quatro séculos de manutenção do regime de exploração de trabalho humano que arregimentava em sua organização castigos físicos e discursos ideológicos nos legaram um modelo de relação ao qual estamos até hoje, intrínseca e inconscientemente, associados. A violência, presente na supressão do direito humano à liberdade e em suas justificativas jurídicas e ideológicas, era não somente pedra angular do sistema escravista, mas peça chave das regras que administram os mecanismos de formação e controle atuais.
A violência é verbal e simbólica, seja exprimida em uma ordem não-contestável ou em uma ameaça inadvertida como na bem conhecida expressão "vc. sabe com quem esta falando?" ou na massacrante rotina suportada pelas massas trabalhadoras rotineiramente nas grandes metrópoles, porém ela é igualmente doutrinária quando impregna a mente coletiva com discursos liberais relacionados ao direito de ir e vir, as teorias que relacionam o sucesso com o esforço individual como no mito do selfmadmen, as promoções da sorte vendida a varejo e claro, no maior monumento ideológico do Ocidente, o direito à propriedade, e, consequentemente, seu maior crime, bem havia dito Rousseau. É sob direito à propriedade que se salvaguardou o escravismo no Brasil, viola-lo era prejudicial à própria liberdade, defendia-se nestas terras à duzentos anos em discursos inflamados. Sermões registrados em papéis como também o foram registrados em filme fotográficos os rostos de constrangimento e rebeldia dos cativos das últimas décadas da escravidão no vale do paraíba fluminense e paulista, na Bahia, em Recife e em tantos outros lugares por Marc Ferrez, George Leuzinger ou Cristiano Jr. etc. Por fim, a violência é física, como atesta a morte do menino Douglas Rodrigues por policiais e a onda de protestos seguidos à manhã do outro dia na zona norte de São Paulo, nada ela tem de inocente ao paralelo que traçamos com o espancamento de Rodney King em Los Angeles no ano 1992.
A violência, monopólio do Estado moderno, é condenável não por sua ilegalidade, mas pela reatividade que lhe é inata. Contestar é apenas uma direção a se voltar na via contrária do processo histórico e sociológico brasileiro, fundado sobre a estigma da violência, sentencia a como irracional em seu juízo oficial e público. Os dispositivos de controle governamental se antes estavam nos olhos dos feitores que tudo viam ou nas câmeras públicas de vigilância, agora também compõe as críticas divulgadas nas bocas de nossos concidadãos. Fabianos dispostos a contestar somente a violabilidade de seus metros cúbicos através de resmungões e burburinhos. Ainda assim, que nego que o constrangimento e a rebeldia imemoriais desta "legião de homens negros como a noite" não perdeu seu acento tão pouco sua cor nos dias de hoje? É isto, um abismo se avulta sob nós.
"Paz é coisa de rico."
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!
Castro Alves, Navio Negreiro
Antes de tudo cabe uma ressalva explicativa em relação ao título deste texto. Lanço mão aqui do conceito cunhado por Caio Prado Jr. por duas razões; primeiro, emprego a mesma definição utilizada por ele quando se referia às circunstâncias sociais, político e econômicas que emolduravam o período histórico conhecido como colonização; segundo, afirmo igualmente que minhas crenças analíticas situam as origens deste processo no período primitivo de nossa formação.
A estrutura sobre a qual ergue-se as relações que fundamentam e constroem a nossa sociedade segue um sentido único, o sentido do nosso processo histórico. Sob ele encontraremos não apenas os fatos que ilustram e emolduram nossa identidade histórica, mas nos será dada a via de acesso para a compreensão do caráter de nossa sociedade contemporânea. Somos fruto de discursos e embates físicos que no decorrer de cinco séculos narrativos tingiram a brasileiridade com um tempero específico. As relações que governam o nosso cotidiano, subscritas em um contrato de senso comum, na verdade guardam a força da corrente incontestável e, as vezes tendo a crer em rompantes de pessimismo, inelutável da história.
Reescrever a gênese deste processo não exige uma mirada especializada ou um embasamento documental, exige, simplesmente, sensibilidade em relação aos não-ditos, interditos e gafes projetados pelo nosso inconsciente e traduzidos em nossas ações. Pois digo, não nos eximamos da corrente da história, somos mesmo seus cúmplices em nossos silêncios. A linguagem, como meio de conexão para o outro, revela em seu intimo as relações de poder as quais se submete. As relações estruturais encarnada na hierarquia sem a qual esta sociedade não se sustentaria são expressas e podem ser visualizadas no sistema linguístico, a palavra é entendida aqui como signo ideológico, já bem havia dito Mikhail Bakhtin. Assim, a palavra não funciona como mascaramento da práxis cotidiana, antes, para além da sua representação, ela a reafirma permanentemente.
A principal marca identitária de nossa formação se encontra fundamentalmente no sistema escravista, quatro séculos de manutenção do regime de exploração de trabalho humano que arregimentava em sua organização castigos físicos e discursos ideológicos nos legaram um modelo de relação ao qual estamos até hoje, intrínseca e inconscientemente, associados. A violência, presente na supressão do direito humano à liberdade e em suas justificativas jurídicas e ideológicas, era não somente pedra angular do sistema escravista, mas peça chave das regras que administram os mecanismos de formação e controle atuais.
A violência é verbal e simbólica, seja exprimida em uma ordem não-contestável ou em uma ameaça inadvertida como na bem conhecida expressão "vc. sabe com quem esta falando?" ou na massacrante rotina suportada pelas massas trabalhadoras rotineiramente nas grandes metrópoles, porém ela é igualmente doutrinária quando impregna a mente coletiva com discursos liberais relacionados ao direito de ir e vir, as teorias que relacionam o sucesso com o esforço individual como no mito do selfmadmen, as promoções da sorte vendida a varejo e claro, no maior monumento ideológico do Ocidente, o direito à propriedade, e, consequentemente, seu maior crime, bem havia dito Rousseau. É sob direito à propriedade que se salvaguardou o escravismo no Brasil, viola-lo era prejudicial à própria liberdade, defendia-se nestas terras à duzentos anos em discursos inflamados. Sermões registrados em papéis como também o foram registrados em filme fotográficos os rostos de constrangimento e rebeldia dos cativos das últimas décadas da escravidão no vale do paraíba fluminense e paulista, na Bahia, em Recife e em tantos outros lugares por Marc Ferrez, George Leuzinger ou Cristiano Jr. etc. Por fim, a violência é física, como atesta a morte do menino Douglas Rodrigues por policiais e a onda de protestos seguidos à manhã do outro dia na zona norte de São Paulo, nada ela tem de inocente ao paralelo que traçamos com o espancamento de Rodney King em Los Angeles no ano 1992.
A violência, monopólio do Estado moderno, é condenável não por sua ilegalidade, mas pela reatividade que lhe é inata. Contestar é apenas uma direção a se voltar na via contrária do processo histórico e sociológico brasileiro, fundado sobre a estigma da violência, sentencia a como irracional em seu juízo oficial e público. Os dispositivos de controle governamental se antes estavam nos olhos dos feitores que tudo viam ou nas câmeras públicas de vigilância, agora também compõe as críticas divulgadas nas bocas de nossos concidadãos. Fabianos dispostos a contestar somente a violabilidade de seus metros cúbicos através de resmungões e burburinhos. Ainda assim, que nego que o constrangimento e a rebeldia imemoriais desta "legião de homens negros como a noite" não perdeu seu acento tão pouco sua cor nos dias de hoje? É isto, um abismo se avulta sob nós.
"Paz é coisa de rico."
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